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Fim de tarde de uma alma com fome

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Fim de tarde de uma alma com fome

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Descrição

  O fim de tarde de uma alma com fome, o poema dramático de Sérgio Medeiros, tem ares pessoanos na ambientação indefinida e nebulosa, entre a noite e o dia, a vida e a morte, em que dois personagens, um soldado e uma velha, se conhecem e dialogam. Mas enquanto os poemas dramáticos de Pessoa procuram induzir o leitor a uma espécie de claustrofobia onírica, os três atos de O fim de tarde de uma alma com fome são voltados para fora, numa poética radical de intertextualidade.

  Já nas instruções de leitura, aprendemos que cada ato é uma versão (da mesma história?), e que os atos podem ser lidos em ordens distintas. E não é só isso: o leitor pode optar por substituir uma ou duas das versões por outros textos, entre os quais o Popul Vuh maia-quiché e o volume de clássicos amazonenses Makunaíma e Jurupari.

  O poema, então, compõe-se e recompõe-se nesse diálogo com obras distintas, onde o motivo comum é a cultura ameríndia na sua relação com as línguas e as culturas americanas. Dos vários textos que fazem parte desse diálogo intertextual, o mais importante é a narrativa pemon “Como os venenos azá e ineg, para matar peixes, vieram ao mundo”, de Makunaíma e Jurupari.

  É desse mito que vem o casal que dialoga no poema: a anta, isto é, a velha, ou alma canibal, e o humano – neste caso um soldado que se separou do seu pelotão. Como no conto pemon, o diálogo entre esses seres de espécies distintas é marcado por diferenças perspectivistas: o que para ela é uma cobra, para ele é um fogão; o que para ela são pérolas, para ele são carrapatos, e assim por diante. Mas se o perspectivismo, para Viveiros de Castro, se localiza no mundo mesmo das diferentes pessoas (pessoa anta ou pessoa humana), aqui ele é uma questão de língua. A poesia de Sérgio Medeiros surge precisamente dos jogos de entendimento e desentendimento entre essas duas línguas: a da anta (a velha ancestral indígena) e a do soldado (em outras palavras, o estado-nação) matricida.

 LÚCIA SÁ
Universidade de Manchester

Ficha Técnica
Título Fim de tarde de uma alma com fome
Subtítulo Não
Autor Sérgio Medeiros
Ilustrações Não
Tradução Não
Número da Edição 1
Descrição da Edição Português
ISBN 9788573214611
Número de Páginas 64
Largura 12
Altura 21
Lombada 4
Peso 0.05
Autor

AUTORES

Sérgio Medeiros

Bela Vista, Mato Grosso do Sul, 16 de junho de 1959) é poeta, artista visual, dramaturgo, ficcionista, ensaísta, tradutor e professor de literatura na UFSC. Ganhou o Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2017 na categoria Poesia, com a obra A idolatria poética ou a febre de imagens. Sua obra poética, em parte já traduzida para o espanhol, o italiano e o inglês, é verbo-visual e busca inspiração no pensamento ameríndio, explorando especialmente o totemismo. Uma noção sempre presente nos seus textos (nos quais se destacam o símile e a prosopopeia como principais figuras de linguagem) é a de “sex appeal dos vegetais”, a qual o levou a dialogar com o filósofo italiano Mario Perniola, de quem editou alguns ensaios no Brasil quando foi diretor da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (EdUFSC).

Em livros como Trio pagão, Os caminhos e o rio, Caligrafias ameríndias e Dicionário de hieróglifos Medeiros explora linguagens imaginárias inspiradas na caligrafia de Jerônimo Tsawé, calígrafo xavante, e propõe conceitos contemporâneos de caligrama e de hieróglifo. Sua versão do último romance de James Joyce, com mais de 600 imagens, será publicada pela Iluminuras no formato de ebook em 2022 sob o título A Visual Finnegans Wake on the Island of Breasil.

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